Falando de Universidade fora da Universidade

Hoje resolvi usar um texto que fiz para uma disciplina na UEL (Universidade estadual de Londrina). Sempre me doeu a distância que existe entre a ilha mágica chamada Universidade e o resto do mundo em torno dela. Nesse texto tento humildemente propor uma discussão sobre esses abismos, especialmente na questão do mercado da música. É preciso sim se discutir o quão a universidade pode ou não ser profissionalizante, ao menos em um nível mínimo necessário para a sobrevivência de um profissional no mercado de trabalho fora do meio acadêmico. Já que o blog é meu, tomo liberdade em ser categórico aqui: Geralmente quem discorda dessa afirmação, é por que trabalha no meio acadêmico.
O texto ficou intitulado “O abismo existente entre o ensino de música e o mercado musical”:

O tripé de ensino, pesquisa e extensão da academia é uma estrutura arquitetada de maneira a tornar válida a existência das Universidades, especialmente das públicas. A produção de conhecimento financiada com
dinheiro público em tese é devolvida à sociedade através de projetos de extensão, ou até mesmo a longo prazo, por meio de produtos e serviços inseridos nos diversos setores econômicos. Em que pese, ainda existe um
abismo gigantesco entre o que é ensinado e produzido na universidade e a dinâmica do mundo real ao seu redor. Nesse sentido, nas áreas da arte (especialmente da música), essa discrepância aparentemente é ainda maior.

É altamente improvável pensarmos em instituições ideais e modelos de ensino soberanos, dada a enorme quantidade de variáveis e contextos diferentes, além delicadeza inerente ao assunto. Entretanto, algumas ideologias
podem colaborar para a depreciação da profissão de músico, simplesmente pela maneira como são abordadas. Determinadas instituições são pioneiras em discorrer da práxis e da vivência musical em seus cursos, e de certa maneira entendem a importância dessa abordagem, mas pouco ou nada fala-se sobre o pragmatismo necessário para rentabilizar a música para além do âmbito do ensino. Comumente, a realidade da profissão do músico está inserida em um mercado onde dificilmente existe um vínculo de trabalho assalariado, especialmente em início de carreira, e nada, ou pouquíssimo se discute sobre esse cenário no Brasil, seja em escolas livres de música, cursos técnicos de conservatórios, ou cursos superiores.

Direito autoral, direitos conexos, direito de sincronização, canvas, marketing digital, booking agency, educação financeira, gerenciamento de turnês, press kit, modelos de negócio, merchandising, gerenciamento de projetos, streaming, financiamento coletivo, empreendedorismo de uma maneira geral, esses são alguns assuntos que, se abordados, poderiam se apresentar como uma possível solução para a questão, não só dos cursos de música das academias (sejam eles licenciatura ou bacharelado), mas também de escolas de ensino livre, mesmo para alunos a priori sem intenção profissionalização. De qualquer forma, algumas instituições são pioneiras, e reconhecem a importância desse tipo de conhecimento, como é o caso da Berkeley College of Music, faculdade de Massachusetts fundada em 1945. Cabe ao Brasil começar a se articular e seguir o modelo que sempre foi referência musical, e buscar esse viés também profissionalizante.

Miles Davis, trompetista americano gravou Kind of Blue (1959), um disco de Jazz que alcançou mais de 4 milhões de cópias somente nos EUA, com um Londrina 27/01/2018 gênero musical que talvez possa ser elencado como o menos popular. Esse tipo de trabalho provavelmente não seria possível de se concretizar apenas com o conhecimento musical mesmo na era das grandes gravadoras. Nesse sentido, na era digital essa necessidade de extrapolar as expertises apenas musicais se faz cada vez mais necessária, dado a cenário da indústria musical no século XXI. Desde o aparecimento do Napster e a ameaça da pirataria no início dos anos 2000, os modelos de negócio tanto de empresas, quanto de artistas, bandas, gravadores e outros profissionais envolvidos na cadeia de produção musical foram forçados a se reinventar. Nesse sentido, a era do streaming é de fato completamente diferente da era das grandes gravadoras, e a concentração de responsabilidades está cada vez mais nas mãos dos próprios artistas, que devem assumir diversos papéis na concretização do seu próprio produto.

Sabe-se que é fundamental discutirmos sobre linguagem e estruturação musical, harmonia, contraponto, análise, percepção, técnica, metodologias de ensino, história da música, o papel da música na sociedade, enfim, todos os
assuntos abordados nesse âmbito são igualmente importantes, mas o ponto de discussão é a orientação que deve ser dada aos novos profissionais frente a uma realidade de mercado, que envolve necessariamente saber se posicionar. Infere-se que a falta desse tipo de posicionamento pode acabar resultando em perca de oportunidades, estagnação profissional, ou até mesmo na desistência da carreira de músico. Há uma cultura que reforça estereótipos de que a carreira musical não é rentável, e provavelmente a cultura do não conhecimento sobre 
Music business contribui fortemente para isso, já que, o profissional que não entende de mercado não rentabiliza sua profissão e sua arte, e consequentemente não sobrevive. Não é recomendado a adoção de uma atitude passiva e a espera da oportunidade de emprego assalariado, tampouco a dependência de editais para sobreviver de arte.

O discurso meritocrático é por vezes cruel, já que é frequentemente e infelizmente usado como justificativa para as desigualdades sociais por setores conservadores, e nivela todos tomando como base um mesmo parâmetro. Todavia, se abordado em uma diferente perspectiva, ele pode trazer contribuições positivas para os profissionais da música e principalmente para a mudança de Mindset. É necessário ter pró-atividade, adotar uma postura de liderança frente aos próprios projetos, e buscar posicionamento estratégico para além de excelência musical. Arte e negócios devem transar entre si, já que para tocar pessoas, é necessário conseguir alcança-las.

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