O gozo do sublime no aprendizado musical

São tempos difíceis para os artistas. Tempos de depreciação da prática e da contemplação do sublime, de deslegitimação do discurso artístico, tempos de uma guinada conservadora tencionando para um discurso do que é alta e baixa cultura. Para Jacques Ranciére, filósofo francês de nosso tempo, não há distinção entre o que é arte e política, porque a política é a experiência estética entre dois universos diferentes reivindicando por suas demandas, e a arte também diz respeito a experiência estética. Nesse sentido, Nuno Ramos, artista plástico brasileiro, tinha razão ao dizer que não há arte produzida em condições higiênicas.

Nesse seguimento, decidir estudar música, trata-se na verdade acima de tudo de um ato de coragem. Somos todos corajosos, professores, músicos, alunos, todos envolvidos nesse processo, por que não se trata apenas de uma decisão como qualquer outra, ao estudar música estamos fazendo um voto, é a escolha de carregar um fardo. Buscar ainda mais a fundo como acontecem esses processos, a nível científico, é um passo e também um fardo talvez ainda maior. Como tratar a música, que roça a metafísica, de maneira científica?

Essa semana, Londrina recebeu Egberto Gismonti. Músico multi instrumentista que dispensa apresentações, e já tocou com diversas orquestras de proporções astronômicas, e nomes como Naná Vasconcelos, além de possuir dezenas de álbuns de excelência técnica e musical em uma carreira de nível internacional. É possível fazer uma lista de artistas nessa mesma posição que jamais pisaram na academia para estudar música, como: Jacob do Bandolin, Jackson do Pandeiro, Hermeto Paschoal, Yamandú Costa, João Bosco, e segue a lista, além do próprio Egberto. Sendo assim, com qual finalidade estamos estudando a música por meio de livros, e não simplesmente tocando freneticamente como esses ícones citados?

Ironicamente (sim, pois para chegar nestas conclusões, passamos necessariamente pelo estudo da música por meio de livros, e não do seu fazer cru), esse último ano de aprendizado trouxe consigo um mantra, o de que música se aprende quase exclusivamente por meio da experienciação desta, como uma droga ou um prato de comida exótico, que só é possível de conhecer por meio do contato, da transa entre o sujeito e o objeto a ser descoberto. Assim, é na manipulação musical que está o gozo do sublime artístico, bem como seu aprendizado a priori.

François Delalande, Swanwick, Piaget, Koeullreuter, Schaffer todos esses literatos estão interconectados por um fio, que conduz um pensamento já há muito tempo disseminado nas ruas, no que diz respeito ao aprendizado de música. Tal pensamento versa que o seu fazer é determinante no processo de aprendizado, e inclusive, a música tratada academicamente é de certa forma vista por vezes pejorativamente, pois supostamente se afasta justamente do fazer.

Me parece que a resposta à pergunta feita há algumas linhas acima está se revelando. Se há tantos gênios que nunca passaram pela academia, ou que nem mesmo tiveram um ensino musical sistematizado, o que acontece no processo de aprendizado desses ícones por exemplo, que mesmo sem todas essas instituições ou métodos, desenvolveram o seu fazer artístico de maneira colossal? Seriam eles dotados de um dom divino? Para aqueles que não possuem um radar de ironia bem calibrado, fica o recado: a última pergunta se trata de uma provocação, e a resposta, portanto, está subentendida em si mesma.

Buscamos nos armar de todos os autores citados pois é justamente essa a importância dessa transgressão do estudo musical para além da prática que é igualmente importante. Trata-se da busca e da investigação de como acontece o aprendizado musical para além da conclusão da experienciação.
Entretanto, a dualidade se dá no entendimento de que a vivência musical é o passo mais importante para a absorção desse amálgama de conhecimentos e é crucial, nos empurrando no sentido de desvendar os processos de aprendizagem nessa área. Dessarte, as reflexões musicais aprendidas em nível acadêmico estão no âmbito da metacognição.

Possivelmente, o esclarecimento nesse sentido se dá ao passo em que entendemos qual o papel do professor, do sujeito, e a maneira como tocar esse conteúdo na aprendizagem. Tocar aqui traz uma conotação e uma denotação peculiares, já que cabe duplamente a assimilação do tocar literal, e do tocar do acesso, sem mencionar o tocar do inglês play, para não estendermos o assunto para o jogo musical. Talvez uma das outras importantes mensagens transmitidas pelo fio condutor do sexteto literário estudado é a do sujeito ativo e protagonista no próprio processo de aprendizado musical. Esse parece um princípio óbvio, mas infelizmente o ensino musical sofreu e ainda sofre com o foco em outros objetos que não o indivíduo em si, como é o caso do ensino tradicionalista de conservatório, com os holofotes apontados para o texto musical (partitura).

No que diz respeito ainda ao engessamento do ensino que se cristalizou na tradição do conservatório, pautado no mercado editorial de partituras, Koeullreuter entendeu a transgressão necessária, e nos deixou três recados, incorporados recentemente nas falas da professora Janet El Hauli:

  • Não acredite no que o seu professor fala
  • Não acredite no que você lê nos livros.
  • Não acredite no que você pensa

Entre vivência/experienciação, protagonismo e criticidade, uma última lição anotada à caneta e grifada com marca texto cintilante ao longo do último ano é a de que aprender é desequilibrar-se, é ser perturbado, no melhor dos sentidos. Logo, revela-se aqui também o papel necessário do professor à la Abujamra: o de provocador. O mal-estar é a melhor das sensações quando sabemos que ela cumpre a função muito bem definida de deslocar o sujeito do lugar comum. Por vezes a crise, e a transformação doem, conquanto, se doem, é sinal de que são reveladoras e trazem o caminho da tomada de consciência, seja musical, seja humana.

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