Quem decide o que merece ser aprendido na formação musical? 🪇

Fico muito feliz em apresentar pra vocês aqui do blog, um pouco do que venho fazendo nos últimos dois anos. Uma pesquisa sobre repertório, colonialidade e formação de professores de Música, intitulada: Traços de colonialidade no ensino superior em música: provocações decoloniais acerca da aprendizagem do repertório musical.

Quando pensamos na formação de um músico, é comum dar atenção à técnica instrumental, à teoria, à percepção e à história da música. Mas existe uma questão igualmente importante: quais músicas aprendemos a tocar, estudar e reconhecer como conhecimento legítimo?

Essa pergunta está no centro da minha dissertação de mestrado, desenvolvida na Universidade Estadual de Londrina (UEL). A pesquisa investiga como estudantes e professores de um curso de Licenciatura em Música se relacionam com o repertório musical, tanto em suas experiências pessoais quanto nas práticas acadêmicas de formação.

O repertório musical também é uma questão de poder, raça e colonialidade

O repertório não é apenas um conjunto de músicas que alguém aprende a executar. Ele também expressa escolhas culturais, valores e critérios de legitimidade. Em uma instituição de ensino, essas escolhas influenciam quais tradições recebem maior atenção, quais conhecimentos são considerados fundamentais e quais experiências musicais permanecem à margem, ou mesmo sofrem epistemicídios musicais.

A pesquisa investiga essas relações a partir dos conceitos de colonialidade, colonialidade do poder, colonialidade do saber, colonialidade do ser, violência simbólica, significados inerentes e delineados,epistemicídios musicais, com atenção à permanência de valores eurocentrados no ensino superior de Música. Isso não significa negar a importância das tradições e memória musical eurocidental. Mas sim questionar sua posição privilegiada quando ela restringe o reconhecimento de outras formas de produzir, transmitir e compreender música.

Afinal, o que acontece quando os conhecimentos musicais trazidos pelos estudantes de suas experiências cotidianas encontram os repertórios e as práticas valorizados pela universidade?

O que a pesquisa revelou?

Por meio de um estudo de caso qualitativo, realizei entrevistas semiestruturadas com cinco estudantes e três docentes, além de analisar documentos institucionais relacionados ao curso.

Os resultados apontaram a presença de traços de colonialidade nos repertórios legitimados academicamente. Ao mesmo tempo, os participantes demonstraram movimentos de resistência e conscientização crítica, mobilizando experiências musicais diversas e saberes locais em seus processos formativos. Foi revelado um campo cheio de disputas, conflitos e contradições.

A pesquisa também evidenciou a coexistência de diferentes repertórios: aqueles ligados às preferências pessoais, os associados ao desenvolvimento técnico e os valorizados institucionalmente. Essa convivência produz tensões entre tradição e transformação, revelando que a formação musical não acontece de maneira neutra ou isolada das relações culturais e sociais.

Aprender música é também aprender a questionar

A fundamentação teórica articula contribuições de Paulo Freire, Pierre Bourdieu e Lucy Green. Esses referenciais permitem compreender, por diferentes perspectivas, os processos de conscientização, a incorporação de disposições culturais e os significados construídos nas experiências musicais. Além disso, mobilizamos autores do movemento decolonial, como Quijano, Mignolo, Mbembe, Queiroz e Pereira.

A partir desse diálogo, a pesquisa aponta para a importância de uma educação musical problematizadora, que não se limite à transmissão de conteúdos e repertórios estabelecidos, mas estimule a reflexão crítica sobre os próprios critérios de seleção e valorização do conhecimento musical.

Isso envolve reconhecer a pluralidade cultural sem abrir mão do rigor pedagógico, técnico ou analítico. Trata-se de ampliar as possibilidades de aprendizagem e de examinar criticamente as hierarquias que orientam a formação de músicos e professores.

Por uma formação musical mais plural, além do eurocentrismo da colonialidade ou do imperialismo americanista

A dissertação contribui para o debate sobre a formação docente ao mostrar que discutir repertório é também discutir currículo, legitimidade cultural e concepções de conhecimento. Uma formação musical mais plural depende não apenas da inclusão de novas músicas, mas também da reflexão sobre os critérios que determinam o que é ensinado, como é ensinado e por que determinados saberes ocupam posições privilegiadas.

Mais do que oferecer respostas definitivas, a pesquisa procura contribuir para uma questão fundamental: como formar professores de Música capazes de reconhecer diferentes experiências musicais, refletir criticamente sobre suas práticas e ampliar as possibilidades de aprendizagem de seus estudantes, sem cair no chauvinismo?

Essa discussão interessa a professores, licenciandos, pesquisadores e músicos que desejam compreender melhor as relações entre música, educação e cultura.

Leia a dissertação completa

A dissertação está disponível no Repositório Institucional da Universidade Estadual de Londrina:

📥 Leia a dissertação completa

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