O que dói mais pra você:
Aceitar que você não quer ser músico profissional porque sabe que é um desejo tão gigante e difícil que beira a impossibilidade, ou:
Resignar e aceitar que desistiu do próprio desejo, e traiu o desejo de ser músico profissional integralmente?
Ao invés de aceitar que a instabilidade da Música me exigiria uma postura ativa o tempo todo para sempre estar correndo atrás de oportunidades de trabalho para os próximos meses e anos, resolvi que seria mais fácil fazer uma faculdade em outra área, mais promissora e criar uma carreira paralela. Ao decidir isso, já traí meu desejo de tentar sobreviver de Música exclusivamente.
Ao invés de escrever meus cursos, minhas músicas, minha proposta estética, fico aqui repetindo pensamentos obsessivos e vomitando merdas que já anotei e reli milhões de vezes. Será que gozo mesmo nisso? Será que é mesmo tão importante assim ser músico profissional? Será que vale tantos anos de angústia?
Será que passar três horas em barzinhos sendo ignorado pelo público, recebendo 7 reais por pessoa que quiser pagar, com um equipamento de R$25 mil reais, mais um carro “popular” de 2015 de 40 mil reais necessário para o deslocamento com os equipamentos vale a pena? Talvez, se correlacionei Música com angústia, é porque já perdi o foco e o propósito.
Se formos botar em números, sabemos que esse mercado de commodities da Música nunca valerá a pena.
Entretanto nunca foi por números. E se for pra se tornar um artista? Se assumir artista para o mundo todo nas redes sociais. Qual proposição estética você tem que pretensiosamente acha que vale a pena fazer o convite para o resto da humanidade experimentar também?
Nenhuma. Minha proposta estética é o vazio, o void.
Porque falar de amor todos já falaram, será que ainda há o que propor nesse campo? Falar de putaria, todos já falaram. O sexo e o amor são superestimados quando somos adolescentes. Desvendar os sistemas tonais, atonais, pós-tonais, seriais, todos já desvendaram, decuparam e inventaram ainda mais outros sistemas. Vale a pena se jogar na impossibilidade da mínima sobrevivência para passar horas em estradas e acomodações duvidosas longe da família, correndo risco de vida no trânsito, para propor o vazio para um público que não tenho?
O modelo de negócios não fecha, nem os pensamentos obsessivos. Mas todo artista precisa ser um obsessivo em sua proposta, segundo a fala de um professor meu certa vez. A questão é: como transformar essa obsessão em uma nova ou velha proposta estética em que eu acredite que valha a pena fazer o convite?
E você, aceitou o convite pra experiência de quem? Sua prática se baseia em replicar o convite que te fizeram, como um papagaio, ou propor um novo convite? É viciado em voltar sempre e sempre para aquelas mesmas sensações e afetos que as mesmas músicas de sempre te causam? Qual é a experiência que você propõe?
Gostaria de nunca ter lido Jacques Rancière na vida.

